terça-feira, 11 de maio de 2010

Desabafo

"Viajo porque preciso, volto porque te amo." Quando li o título do novo filme de Karim Aïnouz (Madame Satã e O céu de Suely) e André Gomes (Cinema, aspirina e urubus) fiquei emocionado. Achei lindo, meio Roberto e Erasmo Carlos. E consegui (talvez) identificar o que vem me incomodando recentemente, que consigo agora chamar de afetação poética ("nomear é compreender", ensinou alguém, acho que Lacan).

O título do filme é poético, mas não é firulento. É direto, sem mistérios, sem joguinhos (desculpa a repetição) afetados de palavras. E foi isso que me emocionou. Me fez fantasiar com várias imagens, sentimentos, histórias, tudo sem ver o filme, só a partir do título.

Dia desses vi uns vídeos no Youtube, umas capas de disco e fui achando tudo meio falso, posado. Incomodado, escrevi no twitter que a capa do álbum branco dos Beatles nunca havia feito tanto sentido pra mim. Mas aí, ver esse título direto e simples me fez ver que a ausência não é necessária. O que busco é o preenchimento sem farsas sentimentais.

Ando meio de saco cheio de tudo que me parece (não consigo me desapegar desse termo) afetação poética. Gente que olha o pipoqueiro ou o doidinho da esquina e logo leva a mão ao peito e se diz maravilhada com a poesia do mundo. Acho um saco essa gente.

Por isso ando pensando e repensando em que título dar ao meu novo disco. Ainda não cheguei à conclusão se as metáforas estão me incomodando ou se elas ainda são aceitáveis. Mas não quero, de jeito nenhum, parecer um afetado poético. Quero ser direto (daí minha dúvida com relação às metáforas).

Agora, neste momento, está vencendo o título 'Boas intenções' para o meu terceiro CD. É tranquilo e tem a ver com o que quero que prestem atenção. Mas tem um outro, que não vou dizer aqui agora, que era o título certo até pouco tempo atrás, mas que começou a me parecer meio afetado. Até a hora de fazer a arte do disco eu resolvo.

E foi mal o desabafo. Talvez tenha sido um desabafo meio afetado...

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Três frases

"Podemos acreditar que o que mais vende é o melhor. Esse é um erro"

“Em muitos veículos a única coisa que importa é vender. Há editores que acham que vale mais uma boa publicidade a uma má crítica.”

“O jornalismo cultural deve estimular o novo, não atender modismos, mas os interesses dos leitores e manter a profundidade.”

Nuria Azancot, redatora-chefe do suplemento El Cultural, do jornal espanhol El Mundo, durante o II Congresso de Jornalismo Cultural.

1, 2, 3, gravando

Fotolog atualizado com imagens da gravação do terceiro disco. No link do menu à direita.


terça-feira, 27 de abril de 2010

Aos que gostam de mim

Um disco triste vem aí. Talvez, com exceção de uma apenas, todas as músicas do meu terceiro CD podem ser classificadas como melancólicas. Mas não se preocupem. Continuo bem; firme e forte na melhor e mais serena fase de minha vida. Obrigado pela preocupação, que, sei, é apenas manifestação de carinho.
Não sei explicar, e minha mãe talvez seja quem mais me pergunte isso, por que escrevo letras que falam de medos, coisas não realizadas, incertezas, fraquezas, dor. Sei que tudo isso continua existindo dentro de mim, apesar de me sentir bem na maior parte do tempo, o que pode ser uma explicação. Mas por que não falar mais sobre o lado luminoso? Não sei...

Li recentemente 'Elliott Smith and the big nothing', biografia de meu herói morto há seis anos. Em determinado momento, o autor, Benjamin Nugent, cita uma frase de uma cantora cujo nome não me vem à memória, mas que dizia basicamente isto: "Se você quer ser um grande compositor, olhe para o lado obscuro da vida".

Nugent citava essa ideia como uma forma de tentar explicar o caminho autoral de Elliott Smith. Achei perfeito. Meus compositores preferidos nunca tiveram medo de olhar para seus monstros mais feios e temíveis. Acho que me influenciaram.

Fazer música não é uma forma de terapia. Pelo menos não pra mim. Música é arte. E para se tentar fazer arte, acredito que precisamos sentir necessidade de modificar o mundo. Ou, melhor, modificar a imagem que as pessoas têm do mundo. O artista é um pouco metido, achando que vale a pena declarar a forma como ele vê as coisas.

Por algum motivo, acho válido dizer às pessoas sobre como ando me sentindo a respeito da minha dificuldade de dizer não, ou da minha crença de que o amor é incerto sempre, apesar de grandioso. E isso pode soar triste.

Mas não sou uma pessoa triste. E, mais, não estou triste. Tanto que tive vontade de escrever a mais feliz de todas as canções que já compus. Justamente a que escolhi para encerrar o disquinho que vem aí. Chama-se 'Tempo cruel'. :-) O título, obviamente, é uma brincadeirinha.

De erro em erro
Chego ao fim
Ao meu final feliz
Com você aqui

O tempo pode ser cruel
Pra quem nunca errou
Mas não pra mim
Que precisei de tanto tempo
Pra acertar

E aonde vou
Ninguém pode chegar
É só pra mim
O meu lugar

sexta-feira, 12 de março de 2010

Três é bom demais

Nesta semana, começou oficialmente a gravação do meu (o "meu", é claro, inclui um bando de gente tão dona quanto eu) terceiro disco. Estou muito feliz. Ao longo do tempo, meus sonhos, fantasias, planos, tudo relacionado à música foi mudando. A vontade de ser um superstar megafamoso foi diminuindo, por conta da realidade mesmo e também por causa das opções de vida que fui fazendo. Depois de um tempo sem saber o que queria de fato, veio claro pra mim um desejo que me parecia possível de realizar: constituir uma obra. Um trabalho consistente, do qual me orgulhasse e que tivesse um tamanhinho considerável.

Pois chegar ao número três é um passo importantíssimo pra essa realização. Sei lá, pode ser viagem minha, mas três discos me parecem um número decente, razoável o bastante pra me fazer sentir que tenho "uma obra". E, se agente parar pra pensar, é coisa pacas mesmo. Tanta banda nem chegou ao segundo. No meio independente, então, é tão cheio de gente que parou no primeiro. Ou que nunca lançou algo além de demos.

Por isso, não consigo deixar de ser muito entusiasmado com tudo o que rola relacionado à música independente. Selos, produtoras, festivais, rádios, sites. Tudo possibilita a vários artistas exatamente isso que está me deixando tão feliz: a chance de lançar seus trabalhos dignamente e formar um pequeno público. Alguns anos atrás, esses músicos estariam condenados a não serem conhecidos por ninguém além de seus amigos.

Por essa realização que começa a se conretizar agora, devo muitos agradecimentos. Além de meus parceiros (principalmente meu irmão-parceiro-sócio, Ju) e músicos que tocam e tocaram comigo, sou muito grato ao selo Senhor F. É foda demais fazer parte de um projeto que pensa em proporcionar uma carreira aos seus artistas, investindo neles com paciência, sem pressão de "dar certo". Poder gravar num belo estúdio e ter a produção do Philippe Seabra e contar com o Fernando Rosa pra conversar sobre o que estamos fazendo, pensar os próximos passos, pedir conselhos é um privilégio e tanto. Ah, como eu sei disso.

Agora, é torcer pra que o disco saia bonito. E que as músicas sejam boas. E que a gente consiga lançá-lo ainda este ano. E que alguém goste. :-)

PS: A imagem desse post é uma homenagem ao Glauco. "Como te chamas? Miguelito! Te chamavas!"

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Guided by Guidis


Este será o ano do Superguidis. Dito isso, explico que escrevo, principalmente, estimulado pela leitura de um texto de Carlos Pinduca, vocalista e compositor do Prot(o), a melhor banda de Brasília depois de Legião Urbana, na minha modesta e convicta opinião. Em ‘A encruzilhada dos Guidis’, publicado no blog do músico e na seção de colunas de Senhor F, Pinduca analisa o novo single da banda gaúcha e aponta três possíveis caminhos a serem seguidos pelos guris de Guaíba.

Peço desculpas se minha análise for superficial, mas o texto de Pinduca parece dizer, resumidamente, que resta à banda ou o fim, devido à falta de um reconhecimento mais amplo; ou uma adaptação estética para se inserir em um esquema maior e, assim, garantir o sustento da carreira; ou – e esta é uma possibilidade na qual o autor não parece acreditar muito – seguir um caminho lento, de consolidação da carreira por meio da força de sua obra.

Escrevo agora porque acredito que a terceira opção não só será aquela que os Guidis irão seguir como, acrescento, acho que eles já a realizaram. Daqui a alguns dias, poderemos todos ouvir o terceiro (terceiro!) disco de uma banda formada em 2003. Eu, por causa da posição privilegiada de integrante do selo Senhor F Discos, já tive a oportunidade de ouvir o CD e estou certo de uma coisa: 2010 vai consolidar o Superguidis como uma das bandas mais importantes do meio independente brasileiro.

O que quero dizer com isso? Na prática, que eles terão um público maior do que já possuem; darão uma razoável garantia aos produtores de shows e festivais de que, ao serem contratados, garantirão um público considerável; e, consequentemente, poderão cobrar um cachê legal para tocar Brasil afora. Ou seja, não digo que os Guidis se transformarão em uma banda do nível comercial de... sei lá, Pitty ou Skank. Mas acho que eles atingirão um patamar de nome de destaque na cena independente, o que não é pouco. Aliás, hoje em dia, é tudo.

E o melhor é que isso, no caso dos Guidis, tem tudo para ser o começo de uma fase brilhante e ascendente. Porque o garoto (ou garota) desavisado que for capturado pelas músicas do terceiro disco vai poder ir atrás e descobrir uma banda que já compôs obras assustadoramente sintonizadas – emocionalmente e socialmente – com a juventude brasileira do fim da primeira década do século 21.

Se estou errado, me diga qual banda compôs algo como ‘Mais um dia de cão’ (a realidade de um jovem de classe média baixa que sabe o peso de correr atrás da sobrevivência), ‘Spiral arco-íris’ (um momento terno e apaixonado, lindamente cotidiano, desse mesmo jovem ao presentear alguém de quem gosta com um simples presente de camelô), ‘Discos arranhados’ (cujo verso “Sem dinheiro é foda à beça, você e eu” já diz tudo) etc. etc. etc.?

Isso e muito mais está à espera do público que se apaixonar pela guitarra furiosa de ‘Não fosse o bom humor’ e pela combinação de grunge com a poesia cotidiana que remete ao Renato Russo de ‘O descobrimento do Brasil’ que é ‘Não saio desse lugar’. Sem falar do refrão grudento de ‘As camisetas’ (“Por que será que sempre chove toda vez que alguém te abandona?”), que deve garantir muitos novos fãs à banda.

Justamente por já ter mostrado consistência roqueira e poética em três discos, os Guidis vão firmar definitivamente seu espaço no independente brasileiro. E, a partir daí, mostrar, pra quem ainda não conhece e pra quem ainda não percebeu, o quanto são (desculpem o termo pouco elaborado) fodas. O que virá depois disso ninguém sabe. E é porque hoje em dia não dá mesmo pra saber como as coisas serão. Mas dá pra dizer que elas serão como o caminho que os Guidis vão trilhar. Seja qual for. Seremos Guided by Guidis. Essa é minha aposta.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Feliz ano-novo com StereoScope


Não sei se é porque em Brasília ficamos num clima chuvoso e cinzeto ou porque minha culpa de burguês aparece de forma mais acentuada. O fato é que os feriados de fim de ano me deixam melancólico. Mesmo tendo passado ótimos Natal e reveillon, ando em câmera lenta, preguiçoso e contemplativo. A chegada do ano-novo não ajuda a mudar meu sentimento. Também não sei a razão, mas acho meio forçado aquele entusiasmo todo que as pessoas manifestam quando chega a meia-noite de 31 de dezembro. Sempre me senti esquisito porque não fico tão feliz quanto os outros parecem ficar e comecei a desconfiar que deve ser fingimento deles.

Faz alguns anos que, quando o fim de dezembro se aproxima, começo a lembrar mais das canções dos caras do StereoScope, belíssima banda de Belém. Isso ocorre principalmente porque a primeira música que ouvi deles era justamente uma que fala do Natal: 'Antigos carnavais (boas festas)', do primeiro disco, 'Rádio 2000', lançado em 2003. Acho que a ouvi naquele mesmo ano, quando a Senhor F a incluiu num e-mail de fim de ano.

"Não adianta dizer que vai ficar mal / Na noite de Natal, é sempre tudo bom", ouvi Jack Nilson cantar numa melodia ao mesmo tempo triste e acolhedora. Fiquei impressionado como aquela gravação lo-fi combinava perfeitamente com o sentimento (um misto de alegria e reflexão melancólica) que me domina todo fim de ano e fui atrás de outras coisas da banda.

'Antigos carnavais' acabou sendo apenas a minha porta de entrada para o mundo do StereoScope, conjunto capaz de combinar rimas ao mesmo tempo espertas e simples com uma profundidade existencial rara. Logo descobri outras belas músicas no disco de estréia, como 'Cherole' (que pra mim é uma espécie de 'She´s leaving home' brasileira), 'Felicidade Azul' e 'Eu envelheço' (uma das minhas músicas preferidas do rock nacional de todos os tempos).Tornei-me fã.

Talvez a grande vantagem da banda seja reunir três grandes compositores (além de Jack, Ricardo Maradei e Marcelo Nazareth) que, apesar de estilos próprios, fazem composições que interagem entre si e dão forma a um repertório consistente. E com uma sonoridade com toques sessentistas repleta de arranjos bem trabalhados, com detalhes saborosos adornando as músicas.

Prova disso é segundo CD dos caras, 'O grande passeio do SteroScope', obra quase conceitual que consegue trazer, ao longo de 15 faixas, reflexões, insights e retratos da nossa vida. Está tudo ali: a rotina que segue igual mesmo depois da morte de um jovem ('O grande passeio ou este lado da vida'), o eterno risco de sermos pegos de surpresa e vermos nossas certezas se desmanchando ('Anche se sia de notte', que tem o maravilhoso verso "De repente chega alguém que não conhece avião, mas sabe voar"); a sensação dos anos passando enquanto ainda somos jovens ('Novembro'); a luta necessária contra a solidão e a busca pela felicidade ('O que você tem'); a lembrança da primeira paixão ('Maria, doze anos') e muito mais.

O StereoScope é dessas bandas que exalam inteligência sem prejuízo algum para a emoção e a simplicidade. E por isso é capaz de oferecer músicas que nos fazem companhia e dão alento. A boa notícia é que o ano que se inicia hoje traz a promessa de lançamento do terceiro disco deles. Será uma dos momentos mais legais para mim deste 2010.

Feliz ano-novo, amigos.

PS: para ouvir os dois primeiros discos do StereoScope, basta clicar aqui.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Melhores dos anos 00

A Senhor F elegeu os melhores discos independentes nacionais dos anos 2000. Confira aqui.

Dos apontados ali, meus favoritos: Superguidis, Prot(o), Suite Super Luxo, Phonopop, Gianoukas Papoulas, Los Hermanos e Frank Jorge. Que faltaram: Lestics (mas o Gianoukas representa bem o Olavo e Umberto e cia) e StereoScope. Por sinal, devo um texto sobre o StereoScope desde que iniciei este blog. Prometo escrever em breve.