sexta-feira, 12 de março de 2010

Três é bom demais

Nesta semana, começou oficialmente a gravação do meu (o "meu", é claro, inclui um bando de gente tão dona quanto eu) terceiro disco. Estou muito feliz. Ao longo do tempo, meus sonhos, fantasias, planos, tudo relacionado à música foi mudando. A vontade de ser um superstar megafamoso foi diminuindo, por conta da realidade mesmo e também por causa das opções de vida que fui fazendo. Depois de um tempo sem saber o que queria de fato, veio claro pra mim um desejo que me parecia possível de realizar: constituir uma obra. Um trabalho consistente, do qual me orgulhasse e que tivesse um tamanhinho considerável.

Pois chegar ao número três é um passo importantíssimo pra essa realização. Sei lá, pode ser viagem minha, mas três discos me parecem um número decente, razoável o bastante pra me fazer sentir que tenho "uma obra". E, se agente parar pra pensar, é coisa pacas mesmo. Tanta banda nem chegou ao segundo. No meio independente, então, é tão cheio de gente que parou no primeiro. Ou que nunca lançou algo além de demos.

Por isso, não consigo deixar de ser muito entusiasmado com tudo o que rola relacionado à música independente. Selos, produtoras, festivais, rádios, sites. Tudo possibilita a vários artistas exatamente isso que está me deixando tão feliz: a chance de lançar seus trabalhos dignamente e formar um pequeno público. Alguns anos atrás, esses músicos estariam condenados a não serem conhecidos por ninguém além de seus amigos.

Por essa realização que começa a se conretizar agora, devo muitos agradecimentos. Além de meus parceiros (principalmente meu irmão-parceiro-sócio, Ju) e músicos que tocam e tocaram comigo, sou muito grato ao selo Senhor F. É foda demais fazer parte de um projeto que pensa em proporcionar uma carreira aos seus artistas, investindo neles com paciência, sem pressão de "dar certo". Poder gravar num belo estúdio e ter a produção do Philippe Seabra e contar com o Fernando Rosa pra conversar sobre o que estamos fazendo, pensar os próximos passos, pedir conselhos é um privilégio e tanto. Ah, como eu sei disso.

Agora, é torcer pra que o disco saia bonito. E que as músicas sejam boas. E que a gente consiga lançá-lo ainda este ano. E que alguém goste. :-)

PS: A imagem desse post é uma homenagem ao Glauco. "Como te chamas? Miguelito! Te chamavas!"

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Guided by Guidis


Este será o ano do Superguidis. Dito isso, explico que escrevo, principalmente, estimulado pela leitura de um texto de Carlos Pinduca, vocalista e compositor do Prot(o), a melhor banda de Brasília depois de Legião Urbana, na minha modesta e convicta opinião. Em ‘A encruzilhada dos Guidis’, publicado no blog do músico e na seção de colunas de Senhor F, Pinduca analisa o novo single da banda gaúcha e aponta três possíveis caminhos a serem seguidos pelos guris de Guaíba.

Peço desculpas se minha análise for superficial, mas o texto de Pinduca parece dizer, resumidamente, que resta à banda ou o fim, devido à falta de um reconhecimento mais amplo; ou uma adaptação estética para se inserir em um esquema maior e, assim, garantir o sustento da carreira; ou – e esta é uma possibilidade na qual o autor não parece acreditar muito – seguir um caminho lento, de consolidação da carreira por meio da força de sua obra.

Escrevo agora porque acredito que a terceira opção não só será aquela que os Guidis irão seguir como, acrescento, acho que eles já a realizaram. Daqui a alguns dias, poderemos todos ouvir o terceiro (terceiro!) disco de uma banda formada em 2003. Eu, por causa da posição privilegiada de integrante do selo Senhor F Discos, já tive a oportunidade de ouvir o CD e estou certo de uma coisa: 2010 vai consolidar o Superguidis como uma das bandas mais importantes do meio independente brasileiro.

O que quero dizer com isso? Na prática, que eles terão um público maior do que já possuem; darão uma razoável garantia aos produtores de shows e festivais de que, ao serem contratados, garantirão um público considerável; e, consequentemente, poderão cobrar um cachê legal para tocar Brasil afora. Ou seja, não digo que os Guidis se transformarão em uma banda do nível comercial de... sei lá, Pitty ou Skank. Mas acho que eles atingirão um patamar de nome de destaque na cena independente, o que não é pouco. Aliás, hoje em dia, é tudo.

E o melhor é que isso, no caso dos Guidis, tem tudo para ser o começo de uma fase brilhante e ascendente. Porque o garoto (ou garota) desavisado que for capturado pelas músicas do terceiro disco vai poder ir atrás e descobrir uma banda que já compôs obras assustadoramente sintonizadas – emocionalmente e socialmente – com a juventude brasileira do fim da primeira década do século 21.

Se estou errado, me diga qual banda compôs algo como ‘Mais um dia de cão’ (a realidade de um jovem de classe média baixa que sabe o peso de correr atrás da sobrevivência), ‘Spiral arco-íris’ (um momento terno e apaixonado, lindamente cotidiano, desse mesmo jovem ao presentear alguém de quem gosta com um simples presente de camelô), ‘Discos arranhados’ (cujo verso “Sem dinheiro é foda à beça, você e eu” já diz tudo) etc. etc. etc.?

Isso e muito mais está à espera do público que se apaixonar pela guitarra furiosa de ‘Não fosse o bom humor’ e pela combinação de grunge com a poesia cotidiana que remete ao Renato Russo de ‘O descobrimento do Brasil’ que é ‘Não saio desse lugar’. Sem falar do refrão grudento de ‘As camisetas’ (“Por que será que sempre chove toda vez que alguém te abandona?”), que deve garantir muitos novos fãs à banda.

Justamente por já ter mostrado consistência roqueira e poética em três discos, os Guidis vão firmar definitivamente seu espaço no independente brasileiro. E, a partir daí, mostrar, pra quem ainda não conhece e pra quem ainda não percebeu, o quanto são (desculpem o termo pouco elaborado) fodas. O que virá depois disso ninguém sabe. E é porque hoje em dia não dá mesmo pra saber como as coisas serão. Mas dá pra dizer que elas serão como o caminho que os Guidis vão trilhar. Seja qual for. Seremos Guided by Guidis. Essa é minha aposta.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Feliz ano-novo com StereoScope


Não sei se é porque em Brasília ficamos num clima chuvoso e cinzeto ou porque minha culpa de burguês aparece de forma mais acentuada. O fato é que os feriados de fim de ano me deixam melancólico. Mesmo tendo passado ótimos Natal e reveillon, ando em câmera lenta, preguiçoso e contemplativo. A chegada do ano-novo não ajuda a mudar meu sentimento. Também não sei a razão, mas acho meio forçado aquele entusiasmo todo que as pessoas manifestam quando chega a meia-noite de 31 de dezembro. Sempre me senti esquisito porque não fico tão feliz quanto os outros parecem ficar e comecei a desconfiar que deve ser fingimento deles.

Faz alguns anos que, quando o fim de dezembro se aproxima, começo a lembrar mais das canções dos caras do StereoScope, belíssima banda de Belém. Isso ocorre principalmente porque a primeira música que ouvi deles era justamente uma que fala do Natal: 'Antigos carnavais (boas festas)', do primeiro disco, 'Rádio 2000', lançado em 2003. Acho que a ouvi naquele mesmo ano, quando a Senhor F a incluiu num e-mail de fim de ano.

"Não adianta dizer que vai ficar mal / Na noite de Natal, é sempre tudo bom", ouvi Jack Nilson cantar numa melodia ao mesmo tempo triste e acolhedora. Fiquei impressionado como aquela gravação lo-fi combinava perfeitamente com o sentimento (um misto de alegria e reflexão melancólica) que me domina todo fim de ano e fui atrás de outras coisas da banda.

'Antigos carnavais' acabou sendo apenas a minha porta de entrada para o mundo do StereoScope, conjunto capaz de combinar rimas ao mesmo tempo espertas e simples com uma profundidade existencial rara. Logo descobri outras belas músicas no disco de estréia, como 'Cherole' (que pra mim é uma espécie de 'She´s leaving home' brasileira), 'Felicidade Azul' e 'Eu envelheço' (uma das minhas músicas preferidas do rock nacional de todos os tempos).Tornei-me fã.

Talvez a grande vantagem da banda seja reunir três grandes compositores (além de Jack, Ricardo Maradei e Marcelo Nazareth) que, apesar de estilos próprios, fazem composições que interagem entre si e dão forma a um repertório consistente. E com uma sonoridade com toques sessentistas repleta de arranjos bem trabalhados, com detalhes saborosos adornando as músicas.

Prova disso é segundo CD dos caras, 'O grande passeio do SteroScope', obra quase conceitual que consegue trazer, ao longo de 15 faixas, reflexões, insights e retratos da nossa vida. Está tudo ali: a rotina que segue igual mesmo depois da morte de um jovem ('O grande passeio ou este lado da vida'), o eterno risco de sermos pegos de surpresa e vermos nossas certezas se desmanchando ('Anche se sia de notte', que tem o maravilhoso verso "De repente chega alguém que não conhece avião, mas sabe voar"); a sensação dos anos passando enquanto ainda somos jovens ('Novembro'); a luta necessária contra a solidão e a busca pela felicidade ('O que você tem'); a lembrança da primeira paixão ('Maria, doze anos') e muito mais.

O StereoScope é dessas bandas que exalam inteligência sem prejuízo algum para a emoção e a simplicidade. E por isso é capaz de oferecer músicas que nos fazem companhia e dão alento. A boa notícia é que o ano que se inicia hoje traz a promessa de lançamento do terceiro disco deles. Será uma dos momentos mais legais para mim deste 2010.

Feliz ano-novo, amigos.

PS: para ouvir os dois primeiros discos do StereoScope, basta clicar aqui.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Melhores dos anos 00

A Senhor F elegeu os melhores discos independentes nacionais dos anos 2000. Confira aqui.

Dos apontados ali, meus favoritos: Superguidis, Prot(o), Suite Super Luxo, Phonopop, Gianoukas Papoulas, Los Hermanos e Frank Jorge. Que faltaram: Lestics (mas o Gianoukas representa bem o Olavo e Umberto e cia) e StereoScope. Por sinal, devo um texto sobre o StereoScope desde que iniciei este blog. Prometo escrever em breve.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Eu eu eu a OMB se deu mal

Da Redação de Senhor F

O Tribunal Regional Federal da 3ª Região proibiu a Ordem dos Músicos do Brasil (OMB) de fiscalizar os músicos bem como exigir a inscrição na entidade. O Acórdão garante aos músicos do estado de São Paulo o direito de exercício da profissão, sem necessidade de prova, inscrição na OMB e sujeição ao regime disciplinar específico. A informação é do deputado Carlos Giannazi, Coordenador da Frente Parlamentar em Defesa dos Músicos e Compositores do Estado de São Paulo.

O Acórdão destaca, entre outros pontos, que "a Lei nº 3.857/60 não exige o registro na OMB de todo e qualquer músico para o exercício da profissão, mas apenas dos que estão sujeitos à formação acadêmica sob controle e fiscalização do Ministério da Educação". “De agora em diante os músicos do estado de São Paulo não podem mais ser fiscalizados pela OMB e nem tampouco ter a obrigatoriedade da inscrição na mesma”, disse Giannazi em seu pronunciamento na Assembléia Legislativa de São Paulo.

Giannazi fez também uma representação no Ministério Público Federal pedindo a suspensão de vários artigos da Lei 3857/60 - que criou a Ordem dos Músicos do Brasil. Depois de julgada pelo Supremo, a ação pode passar a valer em todo o território nacional, desobrigando músicos da inscrição na entidade. O Acórdão está disponível no site do Tribunal Regional Federal (www.trf3.jus. br). Para quem quiser consultar na íntegra, o número do processo é 2005.61.15.001047- 2.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

domingo, 15 de novembro de 2009

Dona Canô pede desculpas por Caetano

Da Redação da Senhor F:

A família do cantor e compositor Caetano Veloso pediu desculpas públicas ao presidente Lula pela infeliz e preconceituosa declaração do músico. Em texto assinado pelo irmão Rodrigo Velloso, a família, e em especial Dona Canô, fez questão de esclarecer que nada tem a ver com a declaração do mano famoso. Na semana passada, Caetano referiu-se ao presidente Lula como analfabeto, ao mesmo tempo em que teceu elogios ao ex-presidente FHC. O texto abaixo foi publicado no jornal Correio da Bahia.

"Venho a público esclarecer que a recente declaração, feita pelo cantor e compositor Caetano Veloso sobre o Presidente Lula, não expressa, em nenhuma hipótese, a opinião da família Velloso. Sua matriarca, Dona Canô, por meu intermédio, deseja se dirigir ao Governador Jaques Wagner, a todos os brasileiros e, principalmente, ao Presidente da República, com um sincero pedido de desculpas".

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Um mantra: a música como fim

Dia desses me chamaram de derrotado. Foi no meio de um debate, uma argumentação acalorada sobre o que nós, músicos independentes, podemos fazer para conquistar mais público. A pessoa que conversava comigo queria agir, "tomar o destino nas mãos", tocar para milhares de pessoas, e acho que imaginou que teria em mim um aliado. Mas meu discurso de que não vejo muito mais o que fazer além de tentar compor as melhores músicas que sou capaz e apresentá-las da melhor maneira possível, dentro das minhas limitações, a incomodou. Afinal, lá pelas tantas, veio a cacetada: "Você é um derrotado, Beto!"

Não vou dizer que não doeu. É difícil se desapegar verdadeiramente da necessidade de ser considerado um vencedor. Ser chamado de loser, big L, assim, na cara dura, não é moleza. Mas me surpreendi reagindo bastante bem. Senti o golpe, é claro, mas não a ponto de dobrar meus joelhos. Continuei firme nas minhas convicções, tentando explicar que minhas crenças servem muito bem a mim, mas que não acho que todos devem agir como eu. Há muitos rumos a seguir no meio musical. Cada um toma o caminho que acreditar ser melhor. E, se me lembro bem, não xinguei de volta.
O papo, porém, ficou longe de ser uma mera briga. Serviu bastante para refletir. Inclusive, agradeci à pessoa pela conversa, que foi, na maior parte da noite, muito rica e interessante. Dias depois, certamente motivado pelo encontro, me peguei pensando muito sobre o que é meio e o que é fim para mim. E percebi que durante muito tempo, desde o comecinho, aos 12 anos, a música era só um meio. Meio de, um dia, ser amado, ser igual ao Renato Russo. Meio de me sentir o maioral, idolatrado por milhares de fãs. Meio de ter mais autoestima. Meio, no fim das contas, de ser um vencedor.
Aprender a fazer canções, montar bandas, organizar shows, gravar demos, tudo isso era um meio de chegar ao sucesso. Mas o sucesso não veio, como normalmente não vem. Da mesma forma como normalmente não ganhamos na Mega-Sena. E com isso, veio a revolta, a inveja, a indignação. Eu me achava bom, melhor do que muitos que faziam sucesso. Um injustiçado.
Estranhamente, porém, ao contrário do que fiz em outros projetos, não desisti de tocar, de compor, de montar bandas. Comecei a ver que, de alguma forma, a música era necessária pra mim. Não interessava quão grande era a frustração, não pensava em parar. E um dia recebi uma lição maravilhosa. Do melhor tipo, que são essas que a pessoa te dá sem nem perceber que tá te ensinando algo.
Foi num ensaio dos Solitários Incríveis, quando caímos numa discussão sobre se a banda estava dando certo ou não. Minha análise tendia a ser direcionada para fatores objetivos, como quantos shows havíamos dado naquele ano, a recepção da crítica à demo, o convite para tocar nesse ou naquele festival. E daí o Txotxa, com toda sua simplicidade, mandou: "Claro que a banda tá dando certo, a gente tá tocando tão bem juntos, fazendo músicas boas. Pra mim, o melhor jeito de saber se uma banda está dando certo é olhando se ela está fazendo música bem".
Calei. Deixei os outros falarem e comecei a mudar ali minha maneira de ver as coisas. Hoje, sei que o que o Txotxa me apresentou naquele instante foi a percepção de que a música deve ser, antes de um meio, o fim. Tocamos porque queremos fazer música boa. Esse é o objetivo.
Ver a música como fim não elimina, é claro, a possibilidade de ela ser meio para infinitas coisas. Mas ela nunca pode perder seu posto principal de "fim". E foi esse aprendizado que me possibilitou não partir pras agressões mais baixas quando fui chamado de derrotado por alguém que acabara de conhecer. Porque essa noção me dá a certeza de que, se a música é o fim, não posso estar derrotado. Como estaria derrotado se acabo de compor, em parceria com o Ju e a ajuda preciosa do Ataide, a melhor música que já fiz? Como, se essa música me encheu de vontade de concluir logo o repertório do terceiro disco para gravá-lo? Se estou melhorando, como posso já estar derrotado?
Sei que para muitos sou mesmo um derrotado. Sei que muitos se perguntam por que eu simplesmente não desisto, já que depois de todo esse tempo só há 190 membros na comunidade "Beto Só" do Orkut. Não digo que mais reconhecimento não me me deixaria feliz. Claro que deixaria. Mas não é essa a questão. O importante é que, apesar da pressão de sermos vencedores, não podemos esquecer que o "fim" é a música. E nesse aspecto, estou cada vez mais satisfeito. Apesar de alguns dizerem que estou cada vez pior, tenho convicção de que estou cada vez melhor. Por isso, não paro. Por isso, não sou um derrotado.