quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Alguns amigos me perguntaram por que voto na Dilma. Eu respondo

Se eu ainda frequentasse divãs e fosse ter um papo solitário com meu analista, certamente chegaria à conclusão de que voto na Dilma por puro egoísmo. E este texto é para explicar por quê. Eu cresci com uma culpa muito grande. Quando era criança, com sete ou oito anos, meu pai me levou pra conhecer a pobreza. Pediu para que o técnico do time de futebol que ele apoiava, fornecendo uniformes, chuteiras e bolas, colocasse eu e meu irmão para jogar. Passei a conviver com garotos bastante humildes das cidades-satélites de Brasília, muitos deles subnutridos e desdentados, que a princípio pareciam assustadores, mas depois, percebi, eram apenas pobres. Como se estivessem me acuando (estavam sendo apenas curiosos), alguns me enchiam de perguntas. Queriam saber como era minha casa, se era verdade que ela tinha piscina, como era andar num carro tão chique como o do meu pai. Eu não conseguia deixar de me sentir constrangido e de pensar que eu tinha muita sorte de ter nascido na família em que eu tinha nascido. Todo sábado de manhã, quando meu pai nos levava até os jogos, ia sofrendo por saber que encontraria mais uma vez aquele tipo de vida difícil, que poderia ter sido a minha, caso eu tivesse nascido em outra casa.

Continuei jogando bola ali até uns 12 anos, quando comecei a perceber que, muitas vezes, era escalado só por ser filho de quem eu era. Certa manhã, cheguei atrasado, e todas as camisas já tinham sido distribuídas. Ao me ver, o técnico pediu para que um dos garotos, o menorzinho do grupo, tirasse a dele e a entregasse para mim. Ele obedeceu segurando o choro e agarrou com profunda tristeza a nota de alguns cruzeiros que o técnico deu a ele para que ele comprasse um picolé. Era uma recompensa por estar sendo tirado do time para que eu jogasse em seu lugar. Eu já era velho o bastante para entender a injustiça que estava acontecendo ali, mas novo demais para recusar a camisa. Eu a vesti com profunda vergonha e joguei querendo que aquele dia acabasse logo. Decidi não voltar mais ao time. Não era um bom jogador. E só era escalado por ser o filho do dono da bola.

Eu cresci acostumado a achar que a miséria e a pobreza eram coisas sobre as quais não podíamos fazer nada. Pobres aos montes sempre existiriam, e eu tinha apenas dado sorte de ter nascido no lado dos ricos, num país que seria eternamente injusto. Talvez uma revolução armada, pensei na época de adolescência, quando, mesmo sendo totalmente despolitizado, flertei com o movimento estudantil. Mas eu, no fundo, sabia que eu não seria capaz de pegar em armas para fazer à força a distribuição de renda no país. Penso que apenas buscava uma maneira de me livrar da culpa, de me convencer de que era comprometido com a mudança. Mas era um menino bem intencionado apenas, desinformado, sem conhecimento da história de meu país.

Eu ainda era esse menino ingênuo quando apoiei Lula para presidente em 1989. Tinha, então, como muita gente certamente tinha, uma visão superficial e maniqueísta de todo o processo político. Havia os bons, da esquerda, e os maus, da direita. Os primeiros eram honestos, os segundos, bandidos. Os “mocinhos” perderam e eu chorei. Não seria daquela vez que eu deixaria de carregar a culpa de ser rico num país de miseráveis.

Cresci, tornei-me jornalista. Busquei fazer matérias que melhorassem as vidas das pessoas. Escrevi sobre educação, saúde, direitos humanos, infância. Continuei votando em Lula, mas passei a achar que o governo Fernando Henrique talvez fosse o melhor que poderíamos ter. Não tínhamos mais inflação, isso era bom. E todas as crianças estavam na escola. Isso era bom.

Fui trabalhar para aquele governo. Secretaria Executiva da Comunidade Solidária. Um dia, em uma palestra a que assisti no trabalho, aprendi que o número de miseráveis não caía de forma expressiva e que, em um certo período, o índice de Gini, que mede a desigualdade social, permaneceu inalterado, sem melhora alguma (de fato, olhando os dados da FGV hoje, entre 1994 e 2002, o índice de miseráveis no país caiu de 28,79% para 26,72%). O fim da inflação parecia bom, mas o país parecia condenado à eterna injustiça. Chegou 2002 e votei em Lula mais uma vez. Continuava despolitizado e ingênuo. Vibrei com a vitória do PT porque teríamos um governo infalível, incorruptível. Não acreditava muito que o Brasil deixaria de ser desigual, mas pelo menos não roubariam o dinheiro público, seriam honestos, não fariam maracutaias com a velha elite eternizada no poder.

Daí veio o chamado escândalo do mensalão. E as pessoas como eu (a classe média que, no fundo, só quer saber que o imposto que gentilmente deixou de sonegar não foi parar na mão de político corrupto) ficaram indignadas. Eu fiquei indignado e achei que o Brasil não tinha mesmo jeito. Se até o Lula corria o risco de sofrer um impeachment, o país estava condenado. Mas aí, algo novo aconteceu em minha vida. Comecei a conversar com pessoas (e meu irmão e o Lourenço foram os primeiros) que buscavam me mostrar o que estava em jogo se o governo Lula fosse interrompido ali.

O momento não era o de jogar a toalha e de lavar as mãos. De achar que todo mundo é igual, logo tanto faz quem comanda. O momento era de, finalmente, amadurecermos politicamente. Vermos que projetos políticos são uma coisa, erros e crimes cometidos por pessoas que estão no governo são outra. Era momento de vermos que há todo um sistema pelo qual se deve jogar para chegar a um objetivo. E que, talvez, e até muito provavelmente, avanços serão alcançados com a ajuda de quem não gostaríamos de ver mais no poder.

Não se trata de perdoar. De dizer, simplesmente, que os fins justificam os meios. Mas de reconhecer que não há puros e que decepções podem aparecer a qualquer instante. Tive decepções ao longo do governo Lula. Posso ter outras e, nesse caso, que os culpados sejam punidos. Que a imprensa fique de olho, agindo com ética e honestidade, por favor. Mas quem não teve decepções nos governos anteriores não deve ter prestado muita atenção aos fatos. E quem acha que não teria decepções num hipotético governo de Marina Silva deve continuar com a ingenuidade que eu tinha em 1989.

É possível anular o voto. Sim, claro. Mas aí é como dizer que tanto faz quem ganhar. E não é assim. Para mim, é hora de, desta vez sem ingenuidade, optar por um projeto político que melhore o país. E, sinceramente, não vejo como não votar em Dilma e escolher a continuidade do governo Lula. Porque nos últimos anos eu passei a me encher de confiança de que meu filho não precisará sentir tanta culpa como eu senti quando era pequeno. Nos últimos oito anos, mais de 20 milhões de pessoas saíram da miséria no país. 32 milhões chegaram à classe média. A taxa de miseráveis despencou para 15,54% no ano passado e continua caindo. Pra mim, é emocionante ficar sabendo de histórias de pessoas que conseguiram estudar, arrumar um emprego melhor. Ver gente da nova classe média passeando no mesmo shopping-center que eu e tendo condições de comprar. É emocionante, de me fazer chorar, poder conversar com um senhor que conheci no aeroporto e me disse, todo feliz, que só precisou viajar duas horas pra ver a filha. Era a primeira vez que ele andava de avião.

Eu, egoisticamente, voto na Dilma porque seu principal compromisso de campanha é retirar da miséria os 21 milhões de brasileiros que ainda continuam lá. Isso pra mim basta. Quero, desesperadamente, viver num país onde eu não tenha de sentir culpa. Culpa de ter tido sorte ao nascer. E não adianta vir outro e me dizer que assume o mesmo compromisso. Porque quem me provou que combater a miséria é possível foi o governo que aí está. E que por isso deve continuar.

PS: Isso tudo sem falar em tantas outras melhoras que este governo conseguiu em comparação ao governo anterior, como mostra o quadro abaixo.

Veja o panfleto num tamanho maior! Via @IlustreBOB

terça-feira, 7 de setembro de 2010

XO, de Elliott Smith


Texto escrito especialmente para a coluna 'Aquele disco', do site VeiaPop.

Eu já gostei e ainda gosto de ouvir muita coisa. Mas a partir da adolescência, sempre houve um artista que ocupou o topo da minha preferência e lá ficou até eu descobrir algo novo que o superava. Assim, se tiver de contar da maneira mais abreviada possível a história de meus ídolos musicais, seria, começando aos 14 anos: The Cure, que foi sucedido por Legião Urbana, que foi sucedido por The Doors, que foi sucedido por The Smiths, que foi sucedido por Pixies, que foi sucedido por Radiohead, que foi sucedido por Elliott Smith, que aparentemente nunca será sucedido por ninguém. Desde 2000, quando descobri o cantor e compositor norte-americano morto há seis anos, nunca achei outro artista que me parecesse melhor que ele.

Então, quando o VeiaPop me convidou pra escrever sobre um só disco que marcou minha vida, achei que não seria muito difícil escolher. Pensei: “Vou pegar o melhor disco do Elliott Smith, o que tem o maior número de canções mais fodonas, e pronto”. Sabia que tinha de ser o ‘Either/Or’ ou o ‘XO’. Mas, putz, qual? O primeiro tem ‘Alameda’, ‘Beetween the bars’ e ‘Angeles’, três das minhas preferidas. Seria tão bom escolhê-lo só para falar da metáfora amorosa mais brilhante de que já tive notícia em uma música pop – a de ‘Beetween the bars’. Quando ele canta “I’ll kiss you again, between the bars”, o cara consegue não só descrever a situação do casal andando pela noite e enchendo a cara como mostrar que, de alguma forma, aquele amor é uma prisão, de um beijo entre as barras (ou grades). Brilhante!

Mas ‘XO’, o quarto disco de Elliott e que sucedeu o ‘Either/Or’, tem um conjunto de músicas muito matadoras: ‘Waltz #2’, ‘Pitseleh’, ‘Waltz #1’, ‘Oh well, okay’, ‘Everybody cares, everybody understands’, ‘I didn’t undestand’. Todas obras-primas de melodias encantadoras e letras destruidoras, dessas que te derrubam primeiro e depois fazem você renascer. Que poder é esse que as belas baladas que apresentam a solidão da forma mais crua têm de oferecer alento a quem as ouve?

Morrissey disse certa vez que fazia aquelas letras tristes que recheavam os álbuns dos Smiths para que as pessoas soubessem que não estavam sozinhas, que havia outros que se sentiam como elas. Não acredito que Elliott Smith dissesse algo do tipo. Ele parecia ser muito modesto sobre seu processo criativo e sobre a importância que sua música podia ter. No entanto, essas seis canções que destaquei de ‘XO’ têm a incrível capacidade de me fazer companhia, de me fazer sentir, de alguma forma, conectado com a humanidade. E, estranhamente, mesmo que apresentem um estado de melancolia que reconheço em mim mesmo, têm o poder de me deixar mais feliz.

Então, se fosse obrigado a levar um só CD para a tal ilha deserta, seria ‘XO’, de Elliott Smith, lançado em 1998. Às vezes ouviria de cabo a rabo, de ‘Sweet adeline’ a ‘I didn’t understand’. Mas às vezes escolheria só uma faixa para ficar ali, no repeat, exaustivamente, como faço tantas vezes ainda hoje, descobrindo novos significados para a letra e sendo possuído pela melodia.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Mais sobre o show do Velvet

A Alê dos Santos publicou um simpático post sobre o show que fizemos no Velvet Pub, durante a Noite Senhor F, na semana passada. Para ler, é só ir até o blog dela, o My favorite way, cheio de notícias sobre música independente. Ela também disponibilizou umas fotos legais no flickr.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Fotos do show no Velvet Pub

Amigos, muito obrigado a todos que foram à Noite Senhor F no Velvet Pub na sexta-feira passada. Eu e todos da banda (Ju, Fernando, Txotxa e Rinaldo) ficamos muito felizes. Espero que tenham gostado. Abraço grande ao pessoal do Charme Chulo, que fez a noite ficar ainda melhor. No fotoblog, vocês podem ver mais fotos da nossa apresentação, como essa aí de cima, cortesia da Paola. Beijos!

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Crônica

37 anos e menos estúpido (um sincero pedido de desculpas)

37 anos não parece uma idade grandes coisas. Não tem a mitologia que envolve os 30 e os 40 nem é uma das idades múltiplas de cinco, que, por alguma razão irracional, parecem ter mais importância que as demais. Mas aí um e-mail de uma colega com antigas fotos do tempo de escola me jogou a real: faz 20 anos que saí do segundo grau. Fazer 37 anos significa completar duas décadas longe do colégio. Já passou tanto tempo que nem se fala mais segundo grau. Aos jovens leitores, explico que era assim que chamávamos o ensino médio na minha época. E pensar que eu achava estranhíssimo quando minha mãe falava de sua época de colegial e isso fazia ela parecer muito velha.

Mas, antes que alguém pense que estou mal, aviso logo que muito pelo contrário. Rever antigos companheiros de segundo grau nessas fotos não me trouxe dor, desespero, depressão, nada disso. Nenhuma saudade daquele tempo. Saudade sinto de pessoas com quem -- pude perceber olhando as imagens -- realmente construí uma relação afetuosa. Não as vi todas nos instantâneos, mas me lembrei com carinho de Fabiana, Roueida, Ernesto, Karine, Fabiano, Rodrigo e tantos outros. Pessoas com quem perdi o contato, mas imagino que estejam bem. Gosto de pensar assim.

Não me sinto velho, mas sei que estou envelhecendo porque consigo rir agora de coisas que pareciam ser muito importantes. Fiquei admirado ao perceber que os bonitos não eram de fato mais bonitos que os feios. E os feios eram bem bonitos, graciosos. Mas de tanto acreditar que estava no grupo dos feios, me esforcei ao máximo para ser bem esquisito. Mecanismo de defesa, que me fazia ser muito chato, injusto e agressivo às vezes. Só isso pode explicar os estilos que eu adotava. Em 1989, ano em que as fotografias foram tiradas, eu deixava meu cabelo crescer livremente. A rebeldia, porém, só me dava um aspecto de uma garota desprovida de qualquer senso estético.

Coincidentemente, o dia ao qual gostaria de voltar para agir de forma diferente foi quando uma amiga docemente preparou uma festinha de aniversário surpresa pra mim. Comprou um bolo, colocou velas sobre ele e, na hora do recreio, entrou na sala convidando todos para cantar 'Parabéns pra você'. Reagi com revolta, me dizendo contra aquelas "convenções capitalistas" (ou qualquer outra expressão boba do tipo) e que não queria nada daquilo. Certamente a magoei naquele dia, mas era muito infantil para reconhecer minha burrice e pedir desculpas de forma apropriada.

No meu processo de envelhecimento, passados 20 anos, sei o quanto a imagem que tentava construir para mim mesmo era tola, sem importância. E ao mesmo tempo sei o quanto os gestos de carinho com aqueles de quem gostamos são importantes. Por isso, muito obrigado, Karine, por comprar o bolo naquele 9 de agosto. Fosse seu amigo hoje, eu ficaria emocionado, te daria um beijo, um abraço e sentiria meu coração batendo feliz. Desculpa. Eu era um adolescente tolo e estúpido.

E obrigado, Tamara, pelas fotos. Um belíssimo presente de aniversário.

Não é menina. Eu sou o de óculos, jaqueta preta e camiseta branca, ajoelhado à esquerda (você pode clicar para ampliar a foto)

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Show na sexta 27 de agosto

O show é na Velvet. No subsolo. Por isso a banana do Velvet Underground, sacou?

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

DJ Só

Amigos, nesta quinta-feira, 12/8, participo do programa Senhor F na Cultura FM de Brasília. É só sintonizar na 100,9 ou ouvir pela internet, neste link aqui. Bolei seis blocos temáticos que devem dar umas 25 músicas mais ou menos, dependendo do quanto rolar de bate-papo com o Pedro Brant. Pra vocês se animarem (ou não), adianto que teremos blocos como o "memória musical" (The Cure, Doors, Smiths), "trilhas de cinema" ('Underground', 'Paris, Texas'), "baladas matadoras" (Neil Young, Nick Drake) e outras coisas mais, como bandas independentes de Brasília e do resto do país.

Então: Quinta, 12/8, 22h, na 100,9 FM ou pela internet.

Espero que curtam!

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Novas imagens da gravação


Mais fotos da gravação do terceiro disco no fotolog (menu à direita). Acima, o Txotxa gravando as baterias de 'Tempo cruel', uma das 10 faixas do CD. Abraços!

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Crônica desta* semana

Um dia nos correios

Conflitos e desentendimentos estão sempre à espreita, prontos para pular sobre você. A ida aos correios para enviar o material de inscrição em um concurso cultural começou divertida, não havendo nada que mostrasse que eu poderia me chatear ali. O fato de a máquina de distribuição das senhas estar estragada era um indício de que as coisas poderiam se complicar, mas eu ignorei esse sinal, divertindo-me com o curioso diálogo entre uma mulher e o funcionário encarregado de organizar a fila de clientes.

– Depois dele, sou eu né?

– Não, a senhora é depois dele – disse o funcionário, apontando para um homem vestido com o inconfundível uniforme amarelo usado pelos carteiros.

– Mas ele é carteiro. Ele também vai ser atendido?

– Sim – respondeu sem conseguir conter o riso o organizador da fila. – Os carteiros também usam os correios.

Um carteiro na fila dos correios é realmente uma cena dessas que, apesar de não poderem ser chamadas de absurdas, te deixam meio confuso. Você espera que o carteiro esteja ali para trabalhar, não para enviar uma carta. Eu me solidarizei com a mulher e passei a me divertir sozinho imaginando frentistas vestidos com seus macacões parando para abastecer seus carros ou pessoas vestidas de garçons sentadas em mesas de restaurantes. Foi quando o problema aconteceu.

Para que vocês possam entender, preciso voltar a alguns minutos antes do divertido diálogo entre a mulher e o funcionário. A agência à qual fui possui duas fileiras de cadeiras, com cerca de seis lugares cada uma, para que aguardemos a nossa vez. Quando cheguei, vi dois rapazes sentados na fileira de trás. Tentei retirar minha senha e fui avisado por um deles que a maquininha não estava funcionando. Logo atrás de mim chegou um senhor, que também tentou em vão retirar sua senha e foi avisado pelo mesmo rapaz sobre o problema técnico.

Foi nesse momento que apareceu o funcionário. Perguntou se eu era o primeiro na ordem de chegada, mas, educadamente, disse que os dois jovens já estavam lá quando eu cheguei. O funcionário disse então que eles eram os primeiros, eu o segundo e...

– Não, o segundo sou eu – interveio, do canto do balcão de atendimento, um sujeito de óculos e cabelo comportado portando uma grande caixa de Sedex. – Eu cheguei depois deles dois – disse. Ninguém o questionou. O guardinha então pediu para que nos sentássemos todos na primeira fila de cadeiras e em ordem de atendimento. Os dois rapazes, o sujeito de óculos, eu e o senhor.

Todos obedecemos, menos o sujeito de óculos, que decidiu ir até um outro balcão para fazer não sei o quê, talvez procurar o CEP, ou terminar de preencher o endereço em seu pacote. O fato é que ficou um lugar vago entre mim e os dois rapazes, que logo foram atendidos, pois estavam juntos.

Chegaram então o carteiro e, depois, a mulher que estranhou o fato de ele estar na fila. Entretido com minhas fantasias sobre frentistas abastecendo seus carros e garçons indo jantar fora, ouvi a palavra “próximo” ser gritada por uma das atendentes. Completamente esquecido do sujeito de óculos que havia se ausentado da fila, levantei-me e fui até o balcão.

– Queria mandar esse material...

– Você tá furando fila! – disse um agora nervoso sujeito de óculos.

– Ah, me desculpe, eu achei que fosse minha vez – eu disse, ainda calmo.

– Não, você sabia que era a minha vez – bradou, o sujeito.

Pronto, eu tava puto. Mas que safado, filho de uma égua, me chamando de fura-fila assim na frente de todo mundo e não aceitando minhas explicações. Aí, acho que eu já tava falando meio exaltado. Tentei dizer que como havíamos feito uma fila e ele se retirou, acabei me distraindo e que havia me ENGANADO e não furado fila, mas ele não deixou eu terminar minha frase. Disse, nervosinho (eu tava puto, mas ele tava nervosinho), que ele havia avisado que era o segundo da fila. Filho da puta. Continuava sem me ouvir.

– O senhor não precisa ficar nervoso – eu disse, provavelmente muito irritado. Sim, eu sei, é difícil não ser meio patético quando entramos numa discussão dessas.

– O assunto já está resolvido, amigo – ele retrucou.

Foi a gota d’água. Larguei meus papéis e dei um soco na orelha esquerda do cara, fazendo seus óculos voarem e acertarem a testa da pobre atendente. Sem dar chances para ele reagir, torci seu braço para trás, como aprendi nas aulas de luta, e o fiz, contorcendo o rosto como um bebezinho prestes a chorar, ajoelhar-se. Camalmente, então, disse:

– Eu havia esquecido do senhor. Foi uma distração. Não foi má fé. O senhor entendeu? – perguntei enquanto dobrava um pouco mais seu braço, como meu professor me ensinou fazer. Gemendo, ele balançou a cabeça afirmativamente. O soltei, peguei meus papéis e fui a outra agência.

Quem me conhece sabe que o fim não foi assim. Mas estava entalado com esse negócio de ser chamado de furador de fila quando havia apenas me distraído, e gostei de imaginar essa cena. Na verdade, até entendo que o cara tenha achado que eu havia agido de má fé, pois muita gente age assim em filas. Mas juro que foi distração e queria que a conversa tivesse sido mais amigável. Tomara que seja da próxima vez.

*Ninguém garante que semana que vem haverá outra crônica

terça-feira, 13 de julho de 2010

Agora, as guitarras

Retomamos hoje as gravações do disco. O Ju concluiu duas músicas. Assim, a coisa fica bem encaminhada. Depois das guitarras, vão faltar só as vozes e umas coisinhas adicionais de violão e violoncelo. Também devemos usar trompetes em uma música e talvez alguns pianos pra deixar tudo mais bonito. Não vou aqui arriscar uma data pro lançamento porque cronograma de independente é essa coisa solta mesmo... ;-). Abaixo, o Ju testa o som de sua tele (e não strato como eu tinha dito e o Pedro me alertou). Na case, ao lado dele, a semiacústica Gibson gentilmente cedida por Fernando Brasil, parceiro de uma das músicas que estamos gravando. 

Abraços!